PLANISFÉRIO / PLANISPHERE – Galeria Mendes Wood, São Paulo, 2017

26 out
2017

 

PLANISFÉRIO / PLANISPHERE

Galeria Mendes Wood – São Paulo, Brasil, 2017

 

25 de Maio – 29 de Julho / May 25th – July 29th

PLANISFÉRIO / PLANISPHERE, 2017

Planisfério/Planisphere, 2017, impressão a partir de microfilme/print from microfilm, 210 × 150 cm

 

PLANISFÉRIO / PLANISPHERE, 2017

Planisfério/Planisphere, 2017, impressão a partir de microfilme/print from microfilm, 210 × 150 cm

 

PLANISFÉRIO / PLANISPHERE, 2017

Planisfério/Planisphere, 2017, impressão a partir de microfilme/print from microfilm, 210 × 150 cm

BICHOS, 2017

Bichos, 2017, gelatina de prata e fotograma, 40 × 50 cm cada

PANORAMA PRETO / BLACK PANORAMA, 2017

Panorama Preto/Black Panorama, 2017, impressão a partir de microfilme/print from microfilm, 234 × 100 cm

 

 

 

Vistas da exposição / Exhibition views

Exposição PLANISFÉRIO_Galeria Mendes Wood_2017

Exposição PLANISFÉRIO_Galeria Mendes Wood_2017

Exposição PLANISFÉRIO_Galeria Mendes Wood_2017

Exposição PLANISFÉRIO_Galeria Mendes Wood_2017

 

 

Antes de você ter chegado aqui

No livro O Mundo Perdido, encontramos um personagem sem nome que percorre todas as suas 587 páginas. Ele é uma voz, em primeira pessoa, que amarra as narrativas que vão se adensando ao longo de seus únicos dois capítulos: Origem e Organização. O livro conta a história de um grupo de cientistas, provindos de diferentes partes do mundo, que tenta provar a existência de Deus através de estranhos projetos, entre eles a criação de uma máquina fotográfica que registraria a Sua presença na Terra. Há também um projeto que consiste na criação de um programa de computador, baseado em algoritmos do tipo pseudo-código, capaz de traduzir os sons da natureza em linguagem humana. Os sons audíveis de ventos, chuvas, entre outros seriam decifrados em notas músicas que, em um posterior momento, ganhariam letras através de edições digitais que contariam a história do mundo, sua origem e seu futuro. O instrumento utilizado pelos cientistas para captar a ‘voz da natureza’ consiste em uma adaptação de uma harpa de boca e de um themerin, uma espécie de máquina híbrida que necessita do contato e do não-contato humano para produzir sons. É na primeira página do livro que já temos contato com a voz desse narrador:

Ainda não tenho forma definida, sou pura consciência que plana no espaço. Eco de uma substância sem nome. Solidão que desconhece a falta do outro. Sinto uma fúria incontrolável que se expande pelos cinco cantos da escuridão. Há um tempo, eu era uma esfera que girava em torno do meu próprio eixo. Agora sou um quadrado que se multiplica em cubos. Há bilhões de anos atrás, singulares ondas têm varrido as minhas lembranças antes de você ter chegado aqui. Estive sozinho durante muito tempo e o que fiz ninguém viu. Sou puro egoísmo.

Assim, o leitor, diferente dos personagens do livro, já tem contato com uma voz que atestaria a existência de uma entidade maior, sobre a qual estariam depositadas todas as hipóteses elaboradas sobre a presença consciente mais antiga que assistiu a criação do mundo. No entanto, quem ler o livro até o final será surpreendido por um desfecho diferente do que se imagina no seu início e que persiste por todas as suas 586 páginas. Será somente no último parágrafo da página 587 que encontraremos a resposta que os cientistas e os leitores de O Mundo Perdido buscam no decorrer de seus devaneios e, portanto, não caberia a mim re-escrevê-la aqui.

Origem e Organização

O conjunto de trabalhos de Letícia Ramos apresentados em PLANISFÉRIOS parece ter estreita ligação com certas aventuras que a ciência e a ficção científica têm encampado durante a sua existência. Tais jornadas tratam do surgimento da Terra, da origem da vida e suas teorias partem de hipóteses sobre o caos. Sabemos que, na Teoria do Caos, um mínimo ruído no início de qualquer evento pode alterar drasticamente o desenrolar das suas ações futuras. Nessa lógica, a ideia de imprevisibilidade e de ordem não-aparente norteiam todas as pesquisas sobre esse assunto, onde o pingar descontrolado de uma torneira e o batimento cardíaco de um cachorro possuem o mesmo ritmo do som que a explosão de uma estrela produz no espaço.

Assim como em O Mundo Perdido, os terremotos, meteoros, montanhas, chuvas, tempestades, águas profundas e geladas, entre outros elementos e fenômenos da natureza já foram investigados pelos projetos VOSTOK, BITÁCORA e ERBF.  Em tais propostas, Letícia já elaborou máquinas fotográficas, cenários e traquitanas para construir imagens que os aparatos existentes não alcançam. Alterando a ideia de paisagem como um constructo que nos é dado, a artista já inventou um repertório visual para poder fabricar as suas fotografias. Entretanto, ao observarmos parte dos trabalhos desta exposição, podemos notar um modo distinto de operar: a ausência de lente que media o olhar da artista e a produção de suas imagens. Não se trata do instante fotográfico, mas do registro de eventos que não possuem testemunho. Uma ficção que parte de relatos e hipóteses já consolidados pelos campos científicos que tentam reconstruir constantemente a história do mundo e suas transformações, tão lentas que poderíamos agrupar todos os seus momentos seqüenciais em imagens abstratas e geométricas. Os fractais poderiam representar esse tipo de imagem-síntese, onde a geometria euclidiana não consegue aplicar as suas leis. E onde o caos deve ser intuído como uma idéia de origem que se repete em ciclos, os quais continuarão acontecendo com ou sem a presença de testemunhas.

Nas séries de fotogramas BICHOS e CÉU esculturas criadas pela artista são projetadas sobre o papel sensível, criando fotografias que, com ausência de negativos, recusam seus duplos. No conjunto de light photogram, não há sequer objetos, a trajetória da luz sobre a gelatina de prata do papel desenha novos espaços. A mesma luz, conduz a narrativa do filme Blue Night que retrata um tempo que já passou, reconstruindo os fenômenos mais antigos do nosso mundo a partir de pequenos cenários montados em uma microfilmadora planetária.

PLANISFÉRIO é a representação de um globo terrestre ou de uma esfera sobre um papel, na nova pesquisa da artista, seu universo ficcional planificado por suas sombras. Ampliações, impressões, fotogramas e o filme foram elaborados a partir de esculturas que não vemos nas imagens que nos são apresentadas. Este dado é um elemento interessante para pensarmos a fotografia como uma ideia que antecede, nesta ordem, a lente, o obturador e até mesmo o filme. Ela é, nesse caso, uma antecipação desenhada com luz das formas que nem o olho humano e nem a máquina registram. O futuro e o passado da imagem são confrontados revelando-se em uma espécie de processo alquímico.

Os russos já exploraram esta linha de investigação que parece não se esgotar do mesmo modo que a literatura de ficção científica a compreende. Exemplificando esse último campo, podemos lembrar da máquina que projetava em looping, imagens fantasmagóricas do passado em A invenção de Morel, de Bioy Casares. Da mesma forma, deve ser mencionado o conto Leica, modelo 1932, de Rubens Teixeira Scavone, onde um dos personagens ganha uma máquina que fotografa o passado ou o futuro, mas nunca o presente. É com base nesse mesmo paradoxo que Letícia parece construir as suas imagens.

Michel Zózimo

 

 

 

Before you got here

In the book The Lost World, we have an unnamed character who is present in all its 587 pages. It is a voice in first person binding the narrative which becomes increasingly dense throughout the book’s only two chapters: Origins and Organisation. The book tells the story of a group of scientists from around the world who are trying to prove the existence of God through highly unusual projects, including the creation of a camera that can register God’s presence on Earth. We also learn of a project that aims to create a computer programme based on pseudo-code algorithms able to translate the sounds of nature into language. The audible sounds of wind, rain, etc. would be deciphered into musical notes that would subsequently gain lyrics through a process of digitalisation to tell us the history of the world, its origins and future. The instrument used by scientists to capture the ‘voice of nature’ was an adaptation of a mouth organ and a Theremin, a sort of hybrid machine that required human contact and non-contact in order to produce sounds. Readers meet the narrator in the first page of the book:     

I still don’t have a defined form; I am pure consciousness that floats in space. The echo of a substance with no name. Solitude that doesn’t perceive the lack of someone else. I feel an uncontrollable rage that expands throughout the five corners of darkness. Some time ago I was a sphere that revolved around my own axis. Now I am a square that is multiplied in cubes. In the last billions of years singular waves have swept my memories before you got here. I was alone for a long time and nobody saw what I did. I am pure selfishness.  

Therefore, the reader, who is different from the characters in the book, is brought into contact with a voice that attests to the existence of a higher force, on which every hypothesis on the oldest conscious presence to have experienced the creation of the world could be based. However, readers that get to the end of the book are surprised by an outcome that differs from what they had imagined at the start and maintained throughout 586 pages. It is only in the last paragraph of page 587 that we find the answer that the scientists and readers of The Lost World were searching for in their daydreams. However, it is not my place to explain the answer here. 

Origins and Organisation

The collection of works by Letícia Ramos presented in Planisphere have close links with adventures that science and science fiction have embraced throughout their existence, such as the birth of Planet Earth, the origins of life and theories around the hypothesis of chaos. We know that in the Theory of Chaos , the smallest noise at the onset of any event can drastically change the development of future events. In line with the theory, the idea of unpredictability and non-apparent order guides the research on this topic, where a tap dripping and a dog’s heartbeat have the same rhythm of the sound produced by an exploding star in space.

In the same way as in The Lost World, earthquakes, meteors, mountains, rain, storms, deep and cold waters and other natural elements and phenomena have been explored by Ramos in VOSTOK, BITACORA and ERBF. For these projects, the artist created photographic cameras, sceneries and gadgets in order to build images that existing devices cannot reach. Changing the idea of landscape as a construct, Ramos invented a visual repertoire in order to produce her photos. However, if we look closely at the works exhibited in this show we can see a different way of operating: the lack of a lens that mediates the artist’s gaze and the production of her images. It is not about a photographic instance but the recording of events that have no witness. A fiction that results from accounts and hypothesis that have already been consolidated by the scientific fields that constantly try to rebuild the history of the world and its transformations, which are so slow we could group every sequential moment in abstract and geometric images. The fractals could represent this type of image-synthesis, where the laws of Euclidian geometry are not applicable. And where chaos must be intuited as an idea of origin that is repeated in cycles that would continue independently of the presence of witnesses.  

In the series of photograms BICHOS and CEU, sculptures created by the artist are projected onto photosensitive paper, creating photos that, due to the absence of negatives, refuse their doubles. In the set of light photograms there aren’t even objects; the trajectory of light onto the silver gelatine on the paper draws new spaces. The same light guides the plot of Blue Night, a film that depicts a by-gone era, reconstructing the oldest phenomenon in our world from small sceneries assembled in a planetarium micro-filming camera. Enlargements, prints, photograms and the film were created from sculptures we don’t see in the images that are presented to us. This is an interesting element to think about photography as an idea that precedes the lens, the shutter and even the film, in this respective order. In this sense, photography is an illustrated anticipation of the forms that neither the human eye nor the camera can record. The image’s future and past are confronted and reveal a sort of alchemical process. 

The Russians have already explored this line of investigation that doesn’t seem to expire in the same way in science fiction. For instance, we can think of the device that projected a loop of phantasmagorical images from the past in Bioy Casares’ The Invention of Morel. In the same way, it is worth mentioning Rubens Teixeira Scavone’s short story Leica, model 1932, in which one of the characters is presented with a camera that photographs the past or the future, but never the present. Ramos seems to build her images on this paradox. 

Michel Zózimo

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